Nas últimas duas ou três gerações, a vida no Brasil se transformou em muitos aspectos. Na década de 50, a maioria dos brasileiros vivia na zona rural. Hoje, não chega a 20% o número dos que escolhem o campo para morar. A urbanização acelerada desestruturou as formas tradicionais de vida da população, a começar pela mudança do cardápio. A dupla arroz e feijão, base da alimentação dos nossos avós, deu lugar à fritura e à refeição pronta. De preferência, acompanhada por um copo de refrigerante. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a mudança não implica em conseqüências apenas na estética da população. O quadro é bem mais grave.
Nada menos que 260 mil pessoas morreram em 2003 em decorrência de doenças crônicas não transmissíveis. Vidas que poderiam ser poupadas com uma alimentação saudável. Das quase 40 mil mortes por diabetes em 2003, por exemplo, 33 mil poderiam ter sido evitadas com dieta equilibrada. O mesmo aconteceu com 65 mil dos 90 mil óbitos decorrentes de doenças cérebro-vasculares e 76 mil dos 101 mil ocasionados por problemas de coração. "O perfil demográfico mudou e, com ele, as escolhas da população na hora de comer. As verduras, legumes e cereais foram deixados de lado. Agora, o que reina é o açúcar e a gordura", afirma Ana Beatriz Vasconcelos, coordenadora da Política Nacional de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.
O cruzamento de dados é inédito e faz parte do Guia Alimentar para a População Brasileira, que está desde ontem na página do ministério na internet (www.saude.gov.b). A publicação será lançada oficialmente na próxima semana, com tiragem de 50 mil exemplares para os serviços de saúde pública. A data foi escolhida a dedo. O alerta será dado em plena Semana Mundial de Alimentação. Além de trazer as informações mais importantes já divulgadas sobre a alimentação e mortalidade dos brasileiros, o guia traz uma série de dicas de consumo.
Mudança radical
Quando fala de sua adolescência, Etevaldo Gomes Cavalcante, de 32 anos, não sente saudade só da pacata vida de Campo Maior, no Piauí, sua terra natal. Morador da Estrutural, ele ainda se lembra com carinho do beiju, cuscuz e café com leite, que hoje trocou por biscoitos industrializados na primeira refeição do dia. A família de Etevaldo também veio para o Distrito Federal em busca de uma vida melhor. O rapaz rapidamente adquiriu o hábito de comer sanduíche, lanche predileto de sua sobrinha Tâmina Cavalcante, de 4 anos. "No Piauí, o almoço era arroz, feijão e carne ou ovo. Meus pais ainda preferem comer isso. Mas eu não dispenso um doce", admite o trabalhador de serviços gerais.
Sem ter consciência dos danos que a mudança pode trazer à sua vida, Etevaldo reproduz a escolha da imensa maioria da população. Desde os anos 70, o consumo de arroz no cardápio dos brasileiros caiu 23%, o de pão 12% e o de feijão, 32%. Em compensação, subiu em 400% o consumo de biscoitos com a chamada gordura trans - aquela que aumenta o colesterol ruim. E os embutidos, como salsichas, frios e lingüiças, tiveram um aumento de 300% na mesa do brasileiro.
DICAS DE SAÚDE
Consuma diariamente cereais integrais, feijões, frutas, legumes e verduras, leite e derivados e carnes magras, aves ou peixes.
Diminua o consumo de frituras e alimentos que contenham elevada quantidade de açúcares, gorduras e sal.
Saboreie refeições variadas disponíveis na sua comunidade.
Escolha os alimentos mais saudáveis, lendo as informações nutricionais dos rótulos dos alimentos.
Alimente a criança somente com leite materno até os seis meses de idade e depois complemente com outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos ou mais.
Novas causas de mortes no país
Renata e o pai, Antonio, se exercitam mas continuam cometendo excessos na alimentação.
Já fazem três meses que Renata Santos, de 18 anos, e seu pai Antônio Pereira, de 41, relizam caminhadas de 30 minutos, três vezes por semana, em família. O exercício foi uma recomendação médica contra a hipertensão e o colesterol alto. Os dois garantem que levam a sério o conselho do doutor mas, no fim do dia, acabam caindo na tentação. "Prefiro fazer um lanche que jantar. Se comer arroz, feijão e carne vou engordar mais", raciocina Antônio, ao devorar um pastel da rodoviária de Brasília.
Raciocínio pouco saudável. A mudança no prato dos brasileiros causou um fenômeno chamado pelos especialistas de transição epidemiológica. A expressão difícil quer dizer, na prática, que as doenças estão em processo de mudança. Hoje, morre-se mais de doenças do coração do que de infecções. A diabetes e a hipertensão também matam mais que a desnutrição.
De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, o aumento no consumo de alimentos processados, ricos em gordura, açúcar e sal, associado ao menor gasto energético diário pela redução da atividade física, explicam as tendências crescentes de sobrepeso, obesidade e doenças crônicas não transmissíveis.
A obesidade é tratada na publicação como uma epidemia que contribui para o fato de aproximadamente 29,9% da população ser portadora de, pelo menos, uma doença crônica não transmissível.
A mortalidade no Brasil, segundo a publicação, apresenta mudanças importantes, nas últimas décadas, no que se refere à distribuição etária e aos grupos de causas. Houve uma queda na proporção de mortes em menores de um ano e aumento de óbitos na faixa de idade de 50 anos e mais. (EK e HB)
O importante é comer com qualidade
Acesso
Alimentar-se bem não é caro. A dieta recomendada se baseia em alimentos in natura e produzidos regionalmente. Para isso, o guia sugere adquirir produtos de pequenos agricultores. É bom para a qualidade da alimentação e também para estimular a geração de renda.
Sabor
Dizer que comida saudável não é saborosa é um tabu. Na verdade, ela precisa ser. Para isso, é necessário estimular alimentos naturais e menos refinados, como, por exemplo, as frutas da estação.
Variedade
É consumir vários tipos de alimentos, evitando a monotonia alimentar, que limita a disponibilidade de nutrientes necessários para atender às demandas fisiológicas e garantir uma alimentação adequada.
Cor
A boa alimentação contempla uma grande variedade de grupos de alimentos com múltiplas colorações. Sabe-se que quanto mais colorida é a alimentação, mais rica é em termos de vitaminas e minerais. Além disso, uma refeição colorida é mais atrativa.
Harmonia
É necessário garantir equilíbrio em quantidade e em qualidade dos alimentos consumidos, considerando que tais fatores variam de acordo com a fase vida e outros fatores, como estado nutricional e de saúde, idade, sexo, grau de atividade física e o estado fisiológico.
Segurança sanitária
Os alimentos devem ser seguros para o consumo. É necessário, por exemplo, ter boas práticas de higiene desde a origem até o preparo.
Autor: Erika Klingl e Hércules Barros
Fonte: Correio Braziliense, quarta-feira, 11 de outubro de 2005
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